A SUICIDA

domingo, janeiro 17, 2010 1 comentários

Tinha a minha mãe que largar seus afazeres na correria toda semana para socorrer a Aparecida. Era álcool que tomava, era comprimido, era o pulso que mal cortava. Viva tentando um suicídio falido sem querer muito a morte de verdade. Despertava com os gritos finos de D. Maria, sua mãe. – Acode aqui, Maria (a outra, minha mãe), que a Aparecida tá morrendo. Ia lá, a retirava do banheiro, olhava bem a cara desfalecida e patética, lhe dava um copo de água com açúcar. Queria mesmo era um reconhecimento, uma atenção ou um casamento para se livrar daquela vida insípida e sem significado.


Uma família sem o menor gosto por nada. Nem de confusão gostavam. Eram alheios até na indiferença. Seu Clemente, o pai, era vigilante noturno do grupo escolar do bairro. Não fedia nem cheirava. Se falava, nem me lembro. Tão poucos dentes na boca silenciosa! O que realçava nele eram as botas de couro com os dedinhos dos pés para fora. Era assim que aliviava os calos. Curioso para crianças, mas, meu Deus, como pode um homem cuidar de uma família se trata assim dos calos? Os irmãos e irmãs passavam ao largo da Aparecida, linda (era a única bonita da casa). Ela nem se justificava depois de socorrida tantas vezes. Nenhuma queixa, nenhum choro arrependido. Idiossincrasias? Mau agouro? Inveja não poderia despertar. Não há quem inveje o suicídio. Nem mesmo os suicidas de verdade, que levam a termo o pacto.


Aparecida sumiu por uns tempos. As crianças da vizinhança imaginavam que havia finalmente, conseguido seu intento. Mas não. Revigorada, apareceu num carrão de um homem bem mais velho, seu amor. Casou-se, mudou e de tanta indiferença contagiosa, nem sei se viveu feliz para sempre.

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