Jacques Prévert - Poesia Libertária

sexta-feira, janeiro 20, 2012 5 comentários
 PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO
    Tradução: Silviano Santiago

 

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro








FAMILIAR
    Tradução: Silviano Santiago


A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele
[ luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra
[ os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.



 CAFÉ DA MANHÃ

      Tradução: Silviano Santiago

Pôs café
na xícara
Pôs leite
na xícara com café
Pôs açúcar
no café com leite
Com a colherzinha
mexeu
Bebeu o café com leite
E pôs a xícara no pires
Sem me falar
acendeu
um cigarro
Fez círculos
com a fumaça
Pôs as cinzas
no cinzeiro
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu
debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.

5 comentários:

  • « Katyuscia Carvalho » disse...

    Ah! a ironia do Prevert!!!
    Poeta que em sua época tentou aproximar a poesia do cidadão comum, não caindo no chatismo da literatura dita "sofisticada".
    Divertido, irreverente e crítico!

    Deixo aqui mais dois poemas dele que eu gostava muito de ler pras minhas turmas:

    PÁGINAS DE ESCRITA

    Dois e dois quatro
    quatro e quatro oito
    oito e oito dezesseis…
    Repitam! Diz o professor
    Dois e dois quatro
    quatro e quatro oito
    oito e oito dezesseis.

    Mas eis que o pássaro da poesia
    passa no céu
    a criança vê-o
    a criança ouve-o
    a criança chama-o:

    Salva-me
    brinca comigo
    pássaro!
    Então o pássaro desce
    e brinca com a criança
    Dois e dois quatro…

    Repitam! Diz o professor
    e a criança brinca
    e o pássaro brinca com ela…
    Quatro e quatro oito
    oito e oito dezesseis
    e dezesseis e dezesseis quanto é que faz?

    Dezesseis e dezesseis não faz nada
    e sobretudo não faz trinta e dois
    e de qualquer maneira
    eles vão-se embora.

    A criança escondeu o pássaro
    na sua carteira
    e todas as crianças
    ouvem a música
    e oito e oito por sua vez também se vão
    e quatro e quatro e dois e dois
    por sua vez desaparecem

    e um e um não fazem nem um nem dois
    um e um também se vão dali.
    E o pássaro da poesia brinca
    e a criança canta
    e o professor grita:
    deixem de fazer palhaçadas!

    Mas todas as outras crianças
    escutam a música
    e as paredes da sala
    desmoronam-se tranquilamente.
    E os vidros voltam a ser areia
    a tinta volta a ser água
    as carteiras voltam a ser árvores
    o giz volta ser falésia
    e a caneta volta a ser pássaro.

    ...

    O MAU ALUNO

    Ele diz que não com a cabeça
    Mas diz sim com o coração
    Diz que sim ao que gosta
    Diz que não ao professor
    Está de pé
    É questionado
    Todos os problemas são apresentados
    De repente, é apanhado por um ataque de riso
    E apaga tudo
    Os números e as palavras
    As datas e os nomes
    As frases e as armadilhas
    E apesar das ameaças do mestre
    Sob os apupos dos prodígios
    Com giz de todas as cores
    No quadro negro da infelicidade
    Desenha o rosto da felicidade.

    (Um beijo, Lisa. Também estou dando um tempo no face...)

  • Lisa Alves disse...

    Nossa esses poemas carregam verdade, liberdade e uma filosofia belíssima, Katy! Grata por acrescentar. :)

    Ah eu também, depois que vi umas coisas que andam acontecendo naquela ferramenta, vou dar um tempo bem grande. Mas sigo nos blogs e com mais dedicação.

    Vamos trocando ideías e textos por aqui (e-mail e blogs), afinal sempre existiu arte e amizade antes do Facebook.

    beijos

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