"O sorriso de Mona Lisa" e a mesmice do cinema

sexta-feira, novembro 19, 2010 3 comentários
Foi em 1989 que o longa-metragem “Sociedade dos Poetas Mortos”, dirigido por Peter Weir, ganhou o Oscar de melhor roteiro, este assinado por Tom Schulman. Estávamos no fim da “Década Perdida”, em pleno século XX, e eu tinha só cinco anos de idade. Isso quer dizer que, de lá para cá, passaram-se 18 anos. Uma vida, indubitavelmente.

Todavia, a caducidade parece ter chegado mais cedo para alguns diretores e roteiristas da recente cinematografia mundial. Uma onda de esquizofrenia e de falta de memória tomou corpo neste ambiente, e agora os cinéfilos de plantão, ou meros apreciadores de bons filmes – que é o meu caso -, começam a sentir os sintomas e as consequências da falta de criatividade e de originalidade que tomou conta das atuais produções do cinema.

Exemplos não faltam para elucidar o que digo. São o caso do norte-americano “O sorriso de Mona Lisa (Mike Newell)” e do francês “A voz do coração (Cristophe Barratier)”, réplicas perfeitas do filme de Weir, só para citar como exemplos. Os dois repetem a mesma fórmula (um/uma professor/professora liberal que começa a lecionar numa escola que preza pela rigidez e moral conservadores e que tenta mudar a lógica das atitudes e dos pensamentos de suas turmas “alienadas” por essa “ácida” metodologia de ensino e que, ao final, conseguem, de um modo ou de outro, construir uma revolução na mente do alunado), e, por conseguinte, acabam invadindo um percurso marcado por clichês e construções discursivas baratas. Tudo muito semelhante, as variações ficam a cargo do elenco, o sexo dos alunos admitidos nos respectivos colégios, uma música de fundo ali, um cenário acolá... Nada de muito especial ou que mereça destaque.

“Mona Lisa Smile”, título original do filme, acontece nos primeiros anos da década de 50 do século XX, e é estrelado por Julia Roberts. A atriz interpreta a professora de História da Arte, Katherine Ann Watson, oriunda da Universidade de Berkeley, na Califórnia. Considerada liberal para os padrões de sua época, ela começa a fazer uma pequena revolução na mente de suas alunas, lutando diariamente para incutir um ideal mais libertário e de vanguarda, desejando retirar delas o fardo de serem preparadas exclusivamente para os ofícios de um venturoso casamento, ideal máximo da maioria das mulheres ao cabo daqueles idos.

Entrementes, pitadas de conjeturas sobre arte são expostas, de maneira superficial e sem compromisso. As antigas discussões sobre “o que é Arte?”, sobre “quem decide o que é Arte?”, e sobre a máxima “reprodução também é arte?”, são as tônicas iniciais do filme, que se perde de sua metade para o fim, entrando em um simplório jogo de namoricos e mexericos dentro do núcleo da obra.

O resultado é um longa “esquecível”, sem muito que acrescentar, perdido no ar e em si mesmo, como sempre ficou o sorriso da obra homônima do pintor renascentista Leonardo da Vinci, com um riso sem graça, monótono, sem explicação inteligível e com uma aparência singular de mediocridade e mesmice. A bem da verdade é que o título chama mais atenção que o conteúdo. Mas nisto também não há nada de novo. Como diz o ditado e uma das personagens do filme, “nem tudo é o que parece”.


Por Germano Xavier
www.oequadordascoisas.blogspot.com

3 comentários:

  • Cacá disse...

    O cinema anda meio cabisbaixo. O mesmo vem acontecendo com a música. A literatura nem tanto, uma vez que sequer chegou a ser de todo descoberta. Ela vivia mais no super mundo das produções nobélicas* e graças à internet há a possibilidade de conhecermos muita gente boa que estava impedida de passar suas idéias e emoções para além dos limites do papel manuscrito. Eu já tinha ouvido também gente da velha guarda da música dizer que há uma falta de assunto na música popular. Não é por causa dos ritmos de moda que proliferam por ai. Eles sempre existiram e não eram páreo para a boa música. Agora são. É verdade também que houve uma queda na qualidade do gosto musical da geração mais nova, mas isso é fruto de uma crise de identidades culturais mais fortes. Acho que é mesmo a falta do que dizer. Falar de amor, de dor de cotovelo, de corpos sarados e rebolação, fala-se em qualquer ritmo. Seja dançante ou não, o que conta é como se embala. E o cinema? Nunca vi tanto remake. Hollywood está anunciando uma enxurrada de novas/velhas apresentações. E não são clássicos que estão sendo revisitados. São antigos sucessos de bilheteria apenas. Isso seria uma prova da crise de criatividade? Ou tudo que se vende e de que se fala muito é bom? Não sei mas me interesso muito, afinal são filmes e música minhas companhias prediletas junto de minha família , meus amigos e meus livros.

    No final, eu vou continuar me perguntando até a morte se a nostalgia é um apego ao passado, uma resistência ao presente que se esperava enquanto futuro melhor ou se é mesmo uma crise que está provocando falta de assunto interessante.
    ________________________________________________
    * um neologismo meu para comparar às produções cinematográficas em busca de Oscar. No caso das literárias, em busca de prêmios Nobel.

    Muito bom, Germano e desculpe o tamanho exagerado do comentário. Abraços. Paz e bem.

  • Cacá disse...

    O cinema anda meio cabisbaixo. O mesmo vem acontecendo com a música. A literatura nem tanto, uma vez que sequer chegou a ser de todo descoberta. Ela vivia mais no super mundo das produções nobélicas* e graças à internet há a possibilidade de conhecermos muita gente boa que estava impedida de passar suas idéias e emoções para além dos limites do papel manuscrito. Eu já tinha ouvido também gente da velha guarda da música dizer que há uma falta de assunto na música popular. Não é por causa dos ritmos de moda que proliferam por ai. Eles sempre existiram e não eram páreo para a boa música. Agora são. É verdade também que houve uma queda na qualidade do gosto musical da geração mais nova, mas isso é fruto de uma crise de identidades culturais mais fortes. Acho que é mesmo a falta do que dizer. Falar de amor, de dor de cotovelo, de corpos sarados e rebolação, fala-se em qualquer ritmo. Seja dançante ou não, o que conta é como se embala. E o cinema? Nunca vi tanto remake. Hollywood está anunciando uma enxurrada de novas/velhas apresentações. E não são clássicos que estão sendo revisitados. São antigos sucessos de bilheteria apenas. Isso seria uma prova da crise de criatividade? Ou tudo que se vende e de que se fala muito é bom? Não sei mas me interesso muito, afinal são filmes e música minhas companhias prediletas junto de minha família , meus amigos e meus livros.

    No final, eu vou continuar me perguntando até a morte se a nostalgia é um apego ao passado, uma resistência ao presente que se esperava enquanto futuro melhor ou se é mesmo uma crise que está provocando falta de assunto interessante.
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    * um neologismo meu para comparar às produções cinematográficas em busca de Oscar. No caso das literárias, em busca de prêmios Nobel.

  • Cacá disse...

    O cinema anda meio cabisbaixo. Nunca vi tanto remake. Hollywood está anunciando uma enxurrada de novas/velhas apresentações. E não são clássicos que estão sendo revisitados. São antigos sucessos de bilheteria apenas. Isso seria uma prova da crise de criatividade? Ou tudo que se vende e de que se fala muito é bom? Não sei mas me interesso muito, afinal são filmes e música minhas companhias prediletas junto de minha família , meus amigos e meus livros.
    No final, eu vou continuar me perguntando até a morte se a nostalgia é um apego ao passado, uma resistência ao presente que se esperava enquanto futuro melhor ou se é mesmo uma crise que está provocando falta de assunto interessante.
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